MANIFESTO CONTRA O MELINDRE

Por um ano novo com menos suscetibilidades

Em alguns dos trabalhos que fui realizando ao longo do ano fui sistematicamente e de forma disfarçada incluindo meu manifesto contra o melindre. Alguns nem notaram que eu estava falando disso, outros, tenho certeza, compreenderam imediatamente.

Entre as definições existentes no dicionário da língua portuguesa como sinônimos da palavra melindre, encontramos: facilidade ou propensão para amuar ou ofender-se; susceptibilidade; coisa frágil, sendo estas usadas quando se quer qualificar alguém que, por pequenas contrariedades, é bastante susceptível de se aborrecer, encolerizar, chatear, ofender-se.

Há algum tempo, uma criativa campanha publicitária de um banco brasileiro fez alusão a uma gerente, de nome Lúcia Helena, que tratava os seus clientes com tanto mimo que chegava a prejudicar o relacionamento deles no dia-a-dia, porque os clientes passavam a imaginar que todas as outras pessoas deveriam tratá-las do mesmo jeito que a Lúcia Helena. Há muitas pessoas que querem, o tempo inteiro, ser mimadas, tratadas de forma especial, não terem os seus interesses contrariados por hipótese alguma e, quando isso ocorre, ficam amuadas, sentidas, magoadas. Este comportamento denomina-se melindre.

Pessoas assim se melindram por qualquer coisa. São pessoas que acreditam serem tão importantes, tão especiais, tão superiores, que não admitem ser contrariadas. O melindre tem sua origem na falta de humildade e, quase sempre, prejudica aqueles em quem se manifesta, pois o melindrado, na maior parte das vezes, tende a ser agressivo, rancoroso e, quando não é agressivo, se afasta das pessoas.

Há pessoas que por qualquer negativa nossa em relação ao que pensam, ou que queiram que seja feito, ou ainda se formos contrários aos seus ideais ou projetos momentâneos, imediatamente se sentem ofendidas, contrariadas, melindradas, divulgando que estão sendo rejeitadas. São os eternos incompreendidos, mal interpretados, perseguidos…

Quem já não teve que dar explicações a alguém por não o ter convidado para uma festa, por não ter ligado no dia do aniversário, por ter esquecido uma data ou um compromisso? Para o melindroso, não importa o fato em si, o que ele deseja são as desculpas, as demonstrações de arrependimento, a constatação de que ele é tão importante que os outros têm que se sentir culpados por não incluí-lo em um programa, por não fazer dele o centro das atenções.

O melindroso logo ensina àqueles que convivem com ele que é preciso medir as palavras, que é preciso agir com cautela, que é preciso “pisar em ovos”, pois sempre que precisamos falar alguma coisa temos que pensar na melhor forma de fazê-lo, caso contrário, eles ficarão magoadas. E não há nada pior que um melindroso magoado: são dias de desculpas, explicações, “adulações”, retratações, até que ele se envolva em outra situação melindrosa e esqueça a anterior.

Vocês podem estar se questionando: “mas todos nós nos melindramos algumas vezes!”, é verdade, mas temos que ter consciência de que isso é prejudicial, tanto para a vida pessoal, como para a profissional, pois o melindrado afasta de si todas as oportunidades de ouvir a verdade, de receber críticas construtivas e crescer com elas.

Há ainda um outro agravante no melindre. O melindroso geralmente é frágil. Ou melhor – o melindroso sempre convence as pessoas à sua volta que é frágil. Essa situação é extremamente cômoda para o melindroso. Todos evitam contrariá-lo, questioná-lo, criticá-lo e, com isso, suas vontades vão sendo atendidas, seus erros compreendidos, suas intolerâncias toleradas e sua vida muito, infinitamente, facilitada.

O senso comum traz outras definições para o melindroso: é o sistemático, o sensível, o metódico, o suscetível. Há mais ainda: o chato, o “pelinha”, o intocável, o intolerante.

As pessoas melindrosas conseguem convencer àquelas que convivem com elas de que são frágeis e não suportam ser contrariadas. Com suas mágoas, seus silêncios rancorosos, suas reações indignadas, suas formas de mostrarem o quanto estão se sentindo ultrajadas, humilhadas, rejeitadas, vão criando em torno de si um ambiente no qual as pessoas ficam “cheias de dedos” e muitos cuidados.

Há melindrosos em todas as faixas etárias, em todas as classes sociais, em todas as raças, credos e tribos. Há também os melindrosos que não são frágeis. São os “bravos”. Aqueles que “não levam desaforo para casa” que não “engolem sapos”, que precisam dar a última palavra, que precisam vencer as discussões, que precisam colocar as outras pessoas “no lugar delas”, afinal, para estes, é uma afronta pessoal que alguém se sobressaia, que lhes subjugue, que chame mais atenção do que eles. São aqueles que não toleram ouvir aquilo com o que não concordam.

Os melindrosos bravos são os mais perigosos. Seu rancor é praticamente eterno, desfazer um mal entendido com eles é quase impossível. Se o melindroso bravo romper com alguém (os melindrosos adoram romper com as pessoas, ficam “de mal”, fazem longos e indignados silêncios, param de falar com quem não faz exatamente o que eles querem, adotam a postura de “ignorar solenemente”, usam a falta de comunicação para ofender e magoar as pessoas e o silêncio para conseguir o que querem), mas, se ele romper, é necessário dar tempo ao tempo, pois só quando o melindroso julga que todos já perceberam que ele está magoado, com raiva, indignado, é que ele pensa em voltar à vida normal.

Para quem lida com pessoas melindrosas, uma triste notícia, não há mágica para mudar. Esse jeito de agir é um mecanismo de manipulação e os melindrosos são muito habilidosos nisso. Mas tente não dar atenção demais, tente não ficar desesperado para melhorar uma situação mesmo quando ele te convence que foi você quem a criou ou piorou.

Agora, se você é “o melindroso”, cuidado. Os melindrosos com o tempo ensinam às pessoas como evitá-los, como enganá-los, como adulá-los, como fazer festas secretas sem convidá-los, como fazer comentários na surdina sem envolvê-los, como criar ao redor deles uma atmosfera de falso companheirismo, apenas para que eles não se frustrem, mas sem nunca ser sinceros e leais com eles. Se você é melindroso, olhe ao seu redor, veja quanto disso você já criou, observe o afastamento gradativo das pessoas próximas que passaram a não mais suportar os “chiliques” comportamentais de mágoa por qualquer razão, e tente um caminho de volta. Essa é uma opção. A outra pode ser, quem sabe, trocar de banco. E evitar a Lúcia Helena. E, para não ser injusta, há uma terceira via: passe pela vida achando que as pessoas respeitam você, que temem você, que poupam você de aborrecimentos por gostarem muito de você… Mas sobreviva ao dia em que descobrir que foi sumariamente enganado.

FONTE: VIVA ITABIRA

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